Fotografia digital impressa em fine art, fotografia antiga comprada na internet, madeira podre
Al. Júlia da Costa, 965 (2020-)
Então é assim. Um dia simplesmente o telhado ruiu. A viga principal, já carcomida pelos cupins, não aguentou a ventania de mais um temporal. Partiu e levou todo o resto consigo.
Ainda permanece em pé a parede do quarto, em que a garota pintou algumas nuvens. Na janela, que dá direto para a calçada, pode-se ver escrito pelo lado de dentro: "I Love You". Quem está na rua vê a frase invertida, como em um espelho.
O quintal dos fundos permaneceu intacto. Um galinheiro, já sem galinhas, e uma mesa com duas cadeiras, ruminando antigas conversas.
Mas da pilha de escombros pouco se reconhece. Uma parede de madeira deitada, ainda com a porta no caixilho, e alguns móveis que não puderam ser retirados. O resto lascas, cacos e fragmentos de memórias esquecidas.
(...)
E essa casa, que eu conheço há tantos anos, ali no fim do Largo, no fim da Jaime Reis, que sempre teve aqueles anões de jardim e um monte de coisas esquisitas, um monte de plantas, não dava para saber se era uma pensão ou a casa de alguma bruxa velha, outro dia, depois de tanto tempo, passei por lá e a casa estava demolida, provavelmente a velha morreu e logo venderam para a especulação imobiliária, depois passei outra noite e tinha uma escavadeira e um carro estacionados, não tinha mais muro então tinha um cara cuidando, e outra manhã eu passei por lá e a escavadeira estava arrancando a última árvore que sobrou no terreno, perto da calçada, e até voou uma lasca do tronco bem no meu rosto, e hoje eu passei e não tem mais nada, só o terreno vazio e os resquícios do que a casa foi ainda visíveis nos muros, e eu lembrei que esqueci de fazer uma foto praquele meu projeto que nunca sai do papel.
Ainda permanece em pé a parede do quarto, em que a garota pintou algumas nuvens. Na janela, que dá direto para a calçada, pode-se ver escrito pelo lado de dentro: "I Love You". Quem está na rua vê a frase invertida, como em um espelho.
O quintal dos fundos permaneceu intacto. Um galinheiro, já sem galinhas, e uma mesa com duas cadeiras, ruminando antigas conversas.
Mas da pilha de escombros pouco se reconhece. Uma parede de madeira deitada, ainda com a porta no caixilho, e alguns móveis que não puderam ser retirados. O resto lascas, cacos e fragmentos de memórias esquecidas.
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E essa casa, que eu conheço há tantos anos, ali no fim do Largo, no fim da Jaime Reis, que sempre teve aqueles anões de jardim e um monte de coisas esquisitas, um monte de plantas, não dava para saber se era uma pensão ou a casa de alguma bruxa velha, outro dia, depois de tanto tempo, passei por lá e a casa estava demolida, provavelmente a velha morreu e logo venderam para a especulação imobiliária, depois passei outra noite e tinha uma escavadeira e um carro estacionados, não tinha mais muro então tinha um cara cuidando, e outra manhã eu passei por lá e a escavadeira estava arrancando a última árvore que sobrou no terreno, perto da calçada, e até voou uma lasca do tronco bem no meu rosto, e hoje eu passei e não tem mais nada, só o terreno vazio e os resquícios do que a casa foi ainda visíveis nos muros, e eu lembrei que esqueci de fazer uma foto praquele meu projeto que nunca sai do papel.