Bólido Hipotético (2017)
Um décimo de segundo: aí está contida toda a História. Todos os fogos e rodas. Todas as guerras. Todo o sangue bebido e derramado. Todos os deuses e religiões. As maravilhas arquitetônicas e as ocas de taipa. As tatuagens e os cabos de comunicação. Grandes e pequenos amores. Todas as traições. Todos os relatórios e todos os poemas. Relógios e ampulhetas. Os infinitos atos inúteis dos cotidianos. As obras-primas. Absolutamente todas as civilizações com todas suas dúvidas e certezas, seus sins e seus nãos. Tudo no curto espaço de tempo entre o abrir e fechar do obturador: um décimo de segundo.
Fossem os 4.500.000.000 anos do planeta comprimidos em um único dia, não haveria vida antes das 6 da manhã. Até as 23h39 aconteceriam pelo menos cinco grandes extinções em massa, incluindo a dos dinossauros. Às 23h59m57s surgiria o Homo sapiens; e às 23h59m59,9s, a escrita - limite da nossa memória. Um décimo de segundo.
À meia-noite e um segundo, quem se lembrará dos feitos de Hércules? Das bombas atômicas? Da receita de foies gras? O que restará das grandes universidades, dos contratos de financiamento imobiliário? Das discussões políticas? O que restará da arte?
Bólido. Pedaço de rocha nua que vaga bilhões de anos pelo vazio para, de repente, encontrar atmosfera, fulgurar e, em poucos segundos, morrer diante dos nossos olhos. Analogia de nossa espécie.
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