Os últimos de nós (2025-)
Durante os últimos séculos, o Homo sapiens procurou se separar da natureza. As máquinas, os prédios, o asfalto — tudo o que é considerado civilização e progresso se afasta da nossa origem. Distanciamo-nos tanto desse lugar que, muitas vezes, as estruturas naturais nos parecem completamente estranhas. Isso é especialmente verdade quando falamos dos fungos, um reino inteiro que passa despercebido pela maioria de nós. Suas aparições costumam ser pequenas, fortuitas, efêmeras. Para enxergá-los, é preciso contemplar com calma e cuidado.
As imagens que apresento aqui foram registradas em longos mergulhos na Mata Atlântica. Cenas próximas do meu cotidiano, mas que me surpreendem toda vez que as encontro. Descobri-las é um modo de me reconectar.
Hoje, resta uma minúscula parcela do que a Mata Atlântica um dia foi. No entanto, ela continua sendo um dos biomas mais biodiversos do planeta. Quando fotografo cogumelos, eles deixam de ser elementos invisíveis do ecossistema e surgem como monumentos de resiliência: a floresta permanece aqui, com toda sua riqueza. E todos os petabytes, todos os data centers, não são capazes de reproduzir a complexidade que a evolução levou bilhões de anos para criar. A natureza tem o tempo a seu favor.
Na série Seascapes, o artista Hiroshi Sugimoto fotografa repetidamente paisagens com apenas água e ar. Ele sugere que essa era a vista no princípio da vida humana. Penso em qual será a vista no fim. Os últimos de nós não terão como cena derradeira torres de concreto ou imagens geradas por computador. Eles verão, em um misto de encantamento e exasperação, a eterna continuidade da natureza. E os fungos estarão lá, logo depois do fim, para decompor e renovar o ciclo da vida.